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Trilhas sonoras de Fighting Games que você deveria ouvir!

Muitos players tem a errônea concepção que somente Adventures e RPGs possuem temas musicais espetaculares, carismáticos e de forte elo com seus personagens. Equívoco enorme! Desde o clássico “Street Fighter II: The World Warrior” podemos conferir trilhas sonoras icônicas e de enorme bom gosto em suas estruturas, sendo que com passar dos anos as mesmas melhorariam mais e mais.

Com o advento do Compact Disc nos consoles as possibilidades de se realizar um trabalho de maior qualidade aumentariam drasticamente. Aguçados e muitíssimo incentivados pela enorme viabilidade que as novas ferramentas proporcionariam, os composers rapidamente se mobilizaram, realizando trilhas com elementos inéditos, impossíveis de se realizar no formato das gerações passadas, via Chip Tune.

Na segunda metade dos anos 90 as chamadas trilhas sonoras arranjadas (Arrange Soundtracks ou AST) invadiram as prateleiras das lojas convencionais de música (em especial na Terra do Sol Nascente), obtendo um surpreendente sucesso de vendas e repercussão enorme não só dentro do âmbito gamer. Naqueles tempos não era raro ver a vendagem desses discos estarem lado à lado com artistas “comuns”, revelando compositores da estirpe de Akira Yamaoka e até mesmo ditando tendência no som que rolava nas baladas.

A trilha sonora de “Tekken 3” (1996, Namco) é o perfeito exemplo desse sucesso. DJs famosos da Europa e Ásia fizeram remixes com os principais temas do game que bombaram nas boates mundo afora, chamando a atenção da Namco, que logo decidiu compilar os melhores trabalhos e comercializar um disco com o conteúdo. Posteriormente tanto o trabalho original quanto as músicas revisitadas receberam prêmios de vendagem e reconhecimento dentro do segmento. Crítica e público reconhecendo um excelente trabalho, como devia ser de praxe…

Todo esse sucesso não só fez com que novos talentos fossem revelados, mas também que arranjadores e instrumentistas consagrados (dentro e fora da Game Music) pudessem contribuir em muitos trabalhos até hoje considerados grandes feitos. Integrantes da lendária banda de Fusion Casiopea marcaram forte presença nos principais trabalhos sonoros da SNK, só para citar apenas um exemplo.

Deixando o papo de lado deixo com vocês cinco discos que aprecio bastante e considero mais que recomendados para quem quer conhecer à fundo as trilhas sonoras dos Fighting Games. Bora, bora!

 

    “Kensei: Sacred Fist”

  • Publisher: Konami;
  • Ano de lançamento: 1998;
  • Sistema: Sony PlayStation;
  • Compositores: Akira Yamaoka, Norikazu Miura e Suzuki Kyoban.

 

Este obscuro game de luta em 3D lançado em meados de 1998 para Playstation tinha gráficos surpreendentes e boas idéias, mas possuía mecânica mal arquitetada e personagens ultra clichês, deixando claro que se tratava de mais um Fighting Game em 3D dos genéricos. O mesmo não se pode falar sobre sua trilha sonora: obra surpreendente e de muito bom gosto. Assinada por nada menos que Akira Yamaoka, famoso pelo exímo trabalho realizado com a franquia “Silent Hill”, a variedade de estilos faz ponte com a extrema qualidade das composições.

Aqui podemos ouvir uma trilha sonora que mescla J-Pop+Jazz com arranjos sofisticados e elegância ímpar (“Building”); World Music com nuances eletrônicas e melodias lindíssimas (“China”);  Grunge com guitarras sujíssimas, nos remetendo aos trabalhos do Nirvana da fase “Bleach” (disco de estréia do grupo) (“East Side”) e até mesmo um improvável Noise/Harsh feito somente com microfonias agudíssimas e perturbadoras (“Cave”, essa que facilmente poderia entrar em qualquer episódio da principal série de horror da Konami).

O mais interessante é que todas essas e outras músicas presentes em “Kensei” casam perfeitamente com seus cenários e personagens, proporcionando unidade para a empreitada. A trilha sonora infelizmente nunca recebeu um tratamento adequado, nunca sendo compilada para a venda, apesar do game ter recebido uma segunda chance no ocidente com seu conteúdo intocável.

Realmente um trabalho notável que passou quase que batido pelo grande público. Grande pena!

 

 

    “Fatal Fury 3: Road To The Final Victory”

  • Publisher: SNK;
  • Ano de lançamento: 1995;
  • Sistema: vários;
  • Compositores: Shinsekai Gakkyoku Zatsugidan.

 

No final de 1994 a SNK decidiu lançar seu Neo Geo em versão CD como tentativa de adentrar no mercado de consoles domésticos, conquista impossível de se realizar com o modelo original por culpa do seu altíssimo preço. Só pra demonstrar o quão era complicada situação um título de destaque em cartucho custava em média $300, 00, o mesmo preço de lançamento do Neo Geo CD. Deveras caro!

Além de toda a economia e fidelidade com as conversões de títulos que eram sucessos nos Arcades, os felizes donos da nova máquina eram agraciados com melhoras de som e música. As maravilhas prometidas pelo Compact Disc se faziam mais que reais nas trilhas sonoras que já eram espetaculares em suas versões originais. E a culpa por tal feito também era por conta de um Dream Team musical fabuloso…

A SNK Sound Team (ou Shinsekai Gakkyoku Zatsugidan) era um profícuo conjunto onde 30 integrantes se dividiam em duas partes: a primeira se dedicava aos trabalhos gerais em estúdio e a segunda se restringia somente em criar e recriar arranjos. Toda essa organização assegurava um trabalho de extrema qualidade e a AST do terceiro episódio do “Lobo Solitário” é um exemplo perfeito disso.

Um trabalho ousado e notavelmente compromissado somente com a arte, cada peça encontrada na bolachinha dialoga com seus respectivos “donos”. Esse aspecto é tão forte que parece que a feitura entre composições, cenários e personagens foram pensados de maneira conjunta,

O tema  de Terry, por exemplo, nos remete imediatamente ao seu estilo descolado, num Bebop acelerado com pitadas de Southern Rock, enquanto o desespero e dramacidade se faz presente nas poderosas “ Pandora No Hako Yori Dai 1and 2 Ban [Souguu]”, faixas de cunho erudito que pertencem aos misteriosos irmãos Jin.

Destaque também para os temas da Mai Shiranui, um impressionante e virtuoso número ao piano capaz de emocionar até surdos e ao de Blue Mary, um Fusion com um trabalho primoroso de contrabaixo pra nenhum Marcus Miller pôr defeito.

O grupo desde os primeiros discos arranjados já apresentava a preocupação em associar suas canções aos personagens, mas aqui a fórmula foi intensificada e á cada lançamento cada vez mais próxima da perfeição.

Um disco perfeito como ponto de partida pra quem quer se aprofundar no (inigualável) universo sonoro da antiga SNK .

https://www.youtube.com/watch?v=VdEpvr1bj-E&list=PL400455E6240B685B

 

 

       “Virtua Fighter”

  • Publisher: SEGA;
  • Ano de lançamento: 1993;
  • Sistema: Model 1 e SEGA Saturn;
  • Compositores: Takenobu Mitsuyoshi.

 

 

O ponto de partida dos games de luta em 3D e um dos maiores feitos do mestre Yu Suzuki é muitas vezes é reverenciado somente pela revolução que causou afora. Isso é de uma injustiça enorme, pois um dos maiores clássicos noventista da SEGA também apresenta música extremamente bem feita, assim como inúmeros trabalhos já feitos pela gigante japonesa.

Trilha sonora feita basicamente com instrumentos sintetizados, o capricho nas composições é algo fora do comum até para os padrões atuais. Dificilmente hoje encontramos em algum Fighting Game canções tão originais e estruturadas. Aqui, o famoso padrão oriental em sempre priorizar a beleza nas harmonias e melodias é algo constante em toda a obra.

Temas como o de Akira Yuki, um J-Rock com doses generosas de Fusion guiado por linhas e solos de teclado inspiradíssimos empolgam bastante e o brilhante número de Pai Chan, onde o tradicional (flautas, vocalizações e atmosfera típicas das antigas músicas orientais) e o novo (baixo fluentíssimo, bateria esmeradamente bem programada e harmonia com inúmeras camadas) se encontram de forma mais que perfeita.

Há também espaço para abordagens não-orientais, como podemos ouvir no inacreditável Jazz setentista repleto de guitarras e trompetes sintetizados pertencente á Jeffry McWild. Os instrumentos aqui são tão fidedignos aos “reais” que fica complicado acreditar que tudo foi feito de forma “artificial”. Todo esse capricho na parte sonora já era de praxe nas produções da SEGA, mas aqui a superação é evidente.

O nível de qualidade aumentou ainda mais no segundo capítulo da franquia, mas fiz questão de pôr o primeiro episódio por conta dele ser simplesmente ser lembrado por todos os feitos, menos a sua memorável trilha sonora. É ouvir pra crer!

 

 

       “Street Fighter EX Plus Alpha”

  • Publisher: Arika e Capcom;
  • Ano de lançamento: 1997;
  • Sistema: PlayStation;
  • Compositores: Takayuki Aihara e Shinji Hosoe.

 

Um dos mais polêmicos e inesperados capítulos da franquia que é sinônimo de Fighting Games é recheado de boas surpresas, quer queira seus haters ou não.

Sua jogabilidade era perfeitamente arquitetada, apresentando inúmeras possibilidades de combinação de ataques, cancels e tudo aquilo que faz a alegria dos que gostam de uma boa pancadaria. Pode não ser um dos mais equilibrados, mas foi á partir daqui que a maior franquia da Capcom ganhou implementos em sua mecânica que saiam da sua zona de conforto. Qualquer semelhança entre o Guard Break e o Focus Attack de “Street Fighter IV” é “pura coincidência”.

Além das novidades descritas acima ainda tínhamos um bom número de personagens inéditos (alguns bem interessantes, outros nem tanto…), robusto modo de treinamento em que praticávamos desde simples hadoukens até combos complexos de forma progressiva, com a implementação de trials (algo inédito, até então) e sua soberba trilha sonora arranjada, presente na versão do PlayStation.

Aqui, ao contrário do que cansamos de ouvir em versões atuais do game, não há dispensáveis remixes de temas clássicos ou nada parecido. O time responsável pela parte sonora do game sabiamente decidiu criar tudo do zero e o resultado impressiona. Não é para menos: a equipe era comandada por Shinji Hosoe, um verdadeiro monstro em composições e dono de um currículo invejável, tendo “Ridge Racer”, “Tekken” e “Dragon Spirit” como seus principais feitos.

Estilos musicais como o Jazz, Harsh e Rock são fundidos genialmente com elementos de música eletrônica e World Music, gerando temas ora virtuosamente explosivos, ora contemplativos. Um tema que fica no meio termo e que merece destaque é “Under Tube”, tema de Doctrine Dark. O esmerado trabalho realizado num baixo fletless (versão do instrumento sem a presença dos trastes em seu braço, oferecendo uma sonoridade aveludada e diferenciada ao mesmo) somado á um atmosférico teclado é de uma beleza rara, beirando o genial.

Tanto ineditismo causou estranhamento em crítica a público, algo semelhante com o que aconteceu com a trilha totalmente Jazzy de “Marvel VS Capcom 2”. Hoje, com mais de vinte anos de lançamento, muitos que apedrejaram o trabalho naquela época, hoje admitem sua relevância nem que seja somente no departamento sonoro.

Sobretudo, “SFEXP@” resistiu ao tempo na maioria dos aspectos e  aqueles que o revisitarem de mente aberta terão uma grata experiência de música e gameplay.

https://www.youtube.com/watch?v=ozHniUTpBgo&list=PLG8wpknm3x7cUej8v75qWVbStWGlbjRlO

 

    “Capcom VS SNK: Millennium Fight 2000”

  • Publisher: Capcom;
  • Ano de lançamento: 2000;
  • Sistema: Naomi, SEGA Dreamcast e Sony PlayStation;
  • Compositores: Satoshi Ise.

 

Desde sua primeira aparição em previews, o crossover mais pretensioso de todos os tempos tremeu o mundo com suas inúmeras possibilidades. Afinal, muitas pessoas já imaginavam como seriam os embates entre os personagens das duas softhouses muito antes dos rumores envolvendo “CVSS” existirem. Eles surgiram de forma escassa e sem ninguém esperar, fazendo com que a hype em cima do título se tornasse ainda mais gigantesca.

O game dividiu opiniões quando lançado, especialmente por apresentar uma estética demasiadamente futurista, reflexo claro da virada do milênio e toda aquela “paranóia” criada em cima do assunto. Tudo era “inovador”: desde a tela de seleção de personagens até o sistema de balanceamento e era inevitável sentir certa estranheza no início.

No quesito artístico o game se mostra impecável. Os gráficos eram lindos (apesar dos inúmeros sprites reaproveitados nos personagens da Capcom…) com seus efeitos de luz e sombra mesclado em 2D e 3D, algo nunca feito com tanta maestria até então. Tal trabalho foi tão impactante em sua época que muitos acreditavam que á partir dali aquele seria o padrão seguido por outras softhouses.

No quesito sonoro o capricho também foi notável, com temas repletos de atmosfera urbana e sonoridade quase que totalmente eletrônica. Satoshi Ise, responsável por inúmeros projetos dentro da Capcom, claramente foi influenciado por grupos como Daft Punk e Chemical Brothers durante a feitura da trilha.

As inúmeras (e atordoantes) texturas sintéticas presentes na ótima “Naked Blow” e a contagiante “Needle”, em que o Rap 80’s (Public Enemy, RUN DMC, N.W.A) é reconstruído de forma fantástica demonstram o alto nível das composições presentes no registro. O mais interessante é que todas os temas casaram muito bem com o estilo dos characters das duas empresas, talvez esse sendo o acerto maior da empreitada. Foram dois coelhos abatidos com uma bala: manufaturar uma trilha sonora com temática nunca testada antes, mas de que alguma forma remetesse os jogadores/ouvintes um clima vintage de todas as franquias das gigantes dos Fighting Games envolvidas ali.

A OST da “Luta do Milênio” não é de audição fácil, pois é evidente sua faceta um tanto vanguardista, mas assim como a maioria das “obras difíceis” a recompensa é certa e faz com que nos interessemos em conhecer trabalhos cada vez mais interessantes, assim como esse projeto é.

https://www.youtube.com/watch?v=vVtDGXzbLaA&list=PL909681FD22970821

E você amigo leitor? Conhece e gosta de trilhas sonoras, ás vezes underrated mas super bacana de seu ouvir? Deixe nos comentários esses verdadeiros tesouros perdidos e se a matéria lhe agradou compartilhe para que possamos continuar á todo vapor! Obrigado por estar com a gente.

Grande abraço e até o próximo post!

 

 

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